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Pesquisa investiga relação entre baixo nível de testosterona e agravamento da Covid-19

Por Deyvid Wilker em 02/07/2021 às 09:40:31

Um desses fatores, encontrado a partir de estudos feitos em todo o mundo, é ser do gênero masculino. J√° foram investigados marcadores genéticos -homens possuem cromossomos X e Y, enquanto mulheres têm dois cromossomos X-, imunológicos -homens s√£o mais suscetíveis a doen√ßas infecciosas do que as mulheres, que têm maior incidência de doen√ßas autoimunes- e metabólicos, incluindo a maior ocorrência nos homens de comorbidades em conjunto – como doen√ßas cardíacas, diabetes, hipertens√£o, dentre outras.

Agora descobriu-se que o sistema endócrino (respons√°vel pela produ√ß√£o de hormônios) também parece estar envolvido. A ciência ainda n√£o sabe é quais s√£o os mecanismos biológicos por tr√°s dessa maior gravidade em homens, mas tudo parece estar ligado à presen√ßa do hormônio sexual masculino, a testosterona.

Um estudo ainda em andamento na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de S√£o Paulo de Ribeir√£o Preto est√° buscando a resposta para por que em homens com quadro agravado de Covid o nível de testosterona no sangue é menor.

Os resultados preliminares da pesquisa, coordenada pela imunologista Cristina Ribeiro de Barros Cardoso, j√° demonstram que a baixa quantidade de testosterona é vista tanto em homens com 35 anos e quadro agravado de Covid quanto naqueles de 70 anos, que j√° possuem naturalmente taxas mais baixas desse hormônio.

Metodologia

Primeiro, os pesquisadores examinaram um banco de dados do Grupo Fleury e do Hospital Sírio-Libanês, com informa√ß√Ķes de mais de 480 mil brasileiros, dos quais 25.808 (12.677 mulheres e 13.131 homens) tinham algum diagnóstico positivo para Covid (por exame RT-PCR ou de anticorpos), e viram que os homens em geral possuem marcadores de maior risco para a doen√ßa, como colesterol alto e hiperglicemia.

Depois, coletaram amostras de sangue de cerca de 300 pacientes que foram atendidos em hospitais da regi√£o de Ribeir√£o Preto.

“A nossa an√°lise do banco de dados é mais macro, como se fosse uma amostra representativa da popula√ß√£o. Agora, com os dados dos pacientes, que inclui desde casos assintom√°ticos com resultado positivo para o coronavírus até internados em UTIs, estamos investigando em termos moleculares os mecanismos associados a essa baixa taxa de testosterona”, diz Cardoso.

A pesquisadora elenca duas hipóteses prov√°veis para o baixo nível do hormônio em homens com Covid grave.
“Uma seria que ela é de fato produzida em baixa quantidade porque a infec√ß√£o ataca as gl√Ęndulas [como os testículos] produtoras de testosterona. Essa é a que nós sentimos ser a menos prov√°vel. A outra é que ela é produzida normalmente, porém é consumida em excesso, talvez em uma tentativa de regular a inflama√ß√£o, mas que poderia, também, aumentar a infec√ß√£o do vírus nas células. É isso que queremos investigar.”

Segundo esse e outros estudos, a testosterona é um hormônio facilitador da entrada do vírus nas células, mais especificamente por estar envolvida na produ√ß√£o de uma enzima chamada serina protease transmembranar 2 (TMPRSS2).

Em linhas gerais, o Sars-CoV-2 infecta as células ao ligar a proteína S do Spike (ou espícula do vírus) à enzima ECA2 (enzima conversora de angiotensina 2), presente em células de mucosas que revestem órg√£os do aparelho respiratório, entre outros.

A TMPRSS2 é respons√°vel por deixar a proteína S do coronavírus com um encaixe mais perfeito para a liga√ß√£o com a célula -no termo médico, a clivagem da proteína.

“Ao mesmo tempo que a testosterona tem um papel anti-inflamatório que poderia ajudar a conter o processo de inflama√ß√£o, na sua produ√ß√£o ocorre a ativa√ß√£o de genes respons√°veis por produzir a TMPRSS2, que ajuda o vírus a entrar na célula. Acreditamos que deve haver um ajuste muito fino para impedir essa desregula√ß√£o hormonal”, explica.

Estudo

No final de maio, um artigo publicado na revista científica Jama (Journal of the American Medical Association) j√° havia demonstrado uma associa√ß√£o entre a baixa concentra√ß√£o de testosterona e maior risco de hospitaliza√ß√£o por Covid-19.

O estudo avaliou 152 pacientes que buscaram atendimento médico entre mar√ßo e maio de 2020 com sintomas de Covid. Destes, 90 eram homens, dos quais 84 foram hospitalizados.

Os pesquisadores fizeram coletas de sangue no dia de admiss√£o no hospital e depois nos dias 3, 7, 14 e 28 após a entrada e notaram uma queda de 65% a 85% na taxa de testosterona dos pacientes graves e hospitalizados em compara√ß√£o aos casos moderados.

J√° os outros hormônios estudados, o estradiol (feminino) e o hormônio do crescimento (cuja produ√ß√£o est√° ligada aos hormônios sexuais), n√£o sofreram altera√ß√£o.

Em geral, a concentra√ß√£o mais baixa foi observada no terceiro dia após admiss√£o hospitalar e esteve associada a uma piora do quadro. J√° no dia 28, os níveis voltaram ao inicial.

Tendo em vista essas evidências, Cardoso afirma que o início da queda de testosterona em homens poderia ser usado como forma de diagnosticar se aquele paciente ter√° um quadro agravado ou n√£o.

“Muitos pacientes buscam atendimento na fase leve ou moderada e ainda n√£o requerem suporte ventilatório com intuba√ß√£o, ou seja, a Covid ainda n√£o evoluiu para uma condi√ß√£o pior. Ent√£o o nosso estudo poderia contribuir para identificar esse "ponto de virada", quando o paciente ainda est√° com a doen√ßa moderada, antes do estado grave.”

Mas Cardoso faz uma ressalva e contraindica o uso de suplementa√ß√£o hormonal como maneira de driblar uma piora do quadro clínico de Covid.

“Nesse momento, ainda n√£o sabemos o papel que a suplementa√ß√£o de testosterona ou o tratamento com bloqueadores hormonais pode trazer, isso est√° sendo investigado. Até mesmo pelos motivos citados acima, de a testosterona facilitar a entrada do vírus nas células, uma suplementa√ß√£o pode ter o efeito contr√°rio e piorar o quadro”, explica.

O projeto do consórcio ImunoCovid, que inclui pesquisadores de diferentes √°reas de atua√ß√£o da USP de Ribeir√£o Preto e da Universidade Federal de S√£o Carlos, recebeu apoio da Fapesp (Funda√ß√£o de Amparo à Pesquisa do Estado de S√£o Paulo) e da USP Vida (programa criado para fazer avan√ßar pesquisas e a√ß√Ķes para compra de insumos para Covid-19). A expectativa é que dentro das próximas semanas os primeiros resultados sejam divulgados oficialmente pelo grupo.

Fonte: Banda B

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