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"Trava na pose": o hit quebra-cabeça que une funk cuiabano, letra de TikTok e base pirata alemã

Por Cidade em Foco.net em 03/12/2021 às 06:20:23

Podcast mostra como esse sucesso é uma grande colagem musical com DJs do MT e do TO, cantores do Rio e SP, humorista 'da quebrada' e base não autorizada de faixa franco-alemã. Todo mundo que toca ou canta em 'Trava na pose' (da esquerda, no sentido horário): DJ Olliver, DJ Patrick Muniz, Wagneriz, Benjamin Cotto, Nili Hadida (do duo Lilly Wood and the Prick), DJ Robin Schulz, MC Topre, MC Rennan

Divulgação

É fácil repetir a dancinha feita por milhares de brasileiros, incluindo Marcos Mion, Larissa Manoela e Neymar, que celebrou a classificação para a Copa com "Trava na pose". Mas por trás dos movimentos simples há uma colagem musical complexa, que vai do funk cuiabano ao house alemão. A música foi:

idealizada por um DJ do Tocantins;

criada com a batida de outro DJ do Mato Grosso;

cantada como se fosse um tutorial de dança inspirado em axé baiano por um MC de São Paulo;

reforçada por versos deixados prontos na internet por um MC do Rio;

temperada com piadas de um humorista da "quebrada" paulistana;

finalizada com uma melodia folk francesa no remix por um DJ alemão.

O podcast g1 ouviu desvenda o quebra-cabeça de "Trava na pose". Ouça abaixo:

O capitão do time é o DJ Patrick Muniz, de 18 anos, que mora em Porto Nacional, no Tocantins. Ele aprendeu a editar vídeos e músicas em 2019, quando sofreu um acidente de moto junto com a mãe, e teve que ficar por muito tempo em casa.

Ele criou um estilo de funk debochado, puxado para o meme. Mas a vida dele não é brincadeira. Ele trabalhou na roça e na feira a vida toda. A família é de agricultores e feirantes. Patrick nasceu em Goiás e morou em vários lugares do Paraná antes de ir para o Tocantins.

Depois de aprender a produzir músicas, Patrick fez contatos e viajou para São Paulo, onde encontrou em um estúdio o MC Topre (Marco Rodrigo Gonçalves, 33 anos). Ele gravou alguns vocais do cantor, mas não finalizou de primeira, e voltou com os arquivos para o Tocantins.

Batidão de Cuiabá

Patrick teve a ideia de chamar um amigo para ajudar a fazer uma base para os tais vocais. Em 2020 ele tinha conhecido o DJ Olliver (]Lucas Vinicius Da Silva Oliveira, 21 anos), de Cuiabá. Ele curtia o som do funk cuiabano, e queria que a música tivesse esta base.

Olliver aprendeu a produzir funks em 2015 para ajudar o irmão. O MC Theus Cba queria ser cantor, mas a família não tinha dinheiro para pagar DJs, e por isso escalou o irmão para a tarefa. Ele tomou gosto e começou a tocar em bailes de Cuiabá.

O DJ conta que o funk não é tão popular quanto o ritmo que domina a cidade, o lambadão cuiabano. Mas ele ganha espaço e cara local, com bases que misturam sons de risadas e vozes graves transformadas em base rítmica por ele e outros DJs como Everton Detona e Helinho.

"Trava na pose" tem essa base de vocais graves (um "uh, uh, uh" constante, como eles explicam no podcast acima) que virou a cara do funk de Cuiabá. Mas os dois ainda iriam encaixar outras peças ao quebra-cabeça da música.

É o TikTok... ou É o Tchan?

A voz principal é a do MC Topre. O músico da Zona Norte de São Paulo é um veterano nos bastidores do funk e já escreveu músicas de MCs como Dynho Alves e o Kevin. Mas ele estourou como cantor com a música "Apaga a luz, apaga tudo", que virou hit no TikTok no início de 2021.

Topre sentiu a força do TikTok para impulsionar hits, e quis repetir a fórmula. A letra de "Trava na pose" é quase um tutorial que dá a instrução sobre a própria dancinha ("trava na pose, chama no zoom, dá um close"). Ao explicar a criação, ele traça uma comparação com o axé dos anos 90.

"Eu vim para a coreografia, e imaginei aquelas músicas de antigamente tipo 'segura o tchan, amarra o tchan', ou 'olha a onda, olha a onda, pá pá' . Eu trouxe essa ideia para agora."

"Antigamente todo mundo vinha na coreografia do axé, na hora da dança se juntava todo mundo para fazer o passinho. Já imaginei isso e falei: eu tenho que trazer aquela essência para hoje. E foi quando consegui fazer isso, com o beat de Cuiabá ainda", comemora Topre.

Funk pré-fabricado

MC Rennan

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A música tem outro cantor, mas ele criou seus versos sem nem saber que entraria na parceria. O MC Rennan (Lucas Renan Basilio De Oliveira) tem 26 anos de idade e 10 anos de funk em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.

Rennan tem uma estratégia ousada para espalhar seu trabalho: ele cria e grava versos só com o vocal, sem base, e coloca no site Soundcloud para atrair DJs interessados. Eles podem usar livremente o vocal, mas caso lancem as músicas, têm que incluir Rennan como intérprete.

É como um funk pré-fabricado que fica lá na prateleira para ser finalizado. Com isso, ele emplacou sucessos como "Vai de ladinho", que foi produzida pelo DJ GBR. "Quando estourou essa música no digital eu ganhei US$ 20 mil , coisa de louco. Comprei uma casa na pandemia", diz Rennan.

O vocal de Rennan em "Trava na pose" já estava pronto e publicado na internet três meses antes de a música ser feita. O DJ Olliver procurava um complemento aos versos de Topre quando se lembrou dos cantos pré-prontos do MC. " Ele iu lá a voz, catou, editou e botou na produção", descreve Rennan.

Humor 'da quebrada' de SP

Patrick e Oliver ainda não estavam satisfeitos com a faixa. A voz que abre a música não é do Rennan nem do Topre. Ele se chama Wagneriz, é do Jardim São Luiz, na Zona Sul de São Paulo, e virou o reizinho do humor com o estilo da periferia de São Paulo no Instagram.

Ele ficou conhecido com vídeos com respostas ao estilo "da quebrada" aos posts de Mario Jr, o galã do TikTok que viralizou fazendo charme de comédia romântica. Como Wagneriz é ligado ao universo do funk, sua voz aparece em várias músicas. Patrick tinha usado, por exemplo, em "Magrão do Wagner".

Melodia 'proibidona' da Europa

Robin Schulz abrirá show de David Guetta

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Mas há outro som que não tem nada a ver com o mundo do funk - e nem é do Brasil. A base da música pega um trecho da melodia de “Prayer in C”, remix de uma canção do duo francês de folk Lilly Wood and the Prick feito em 2014 pelo DJ alemão Robin Schulz.

A música foi lançada originalmente em 2010 pelo duo francês, e tem um estilo meio "oração para a Terra", sobre o aquecimento global, guerra e outras tragédias. O clima é bem diferente, mas o dedilhado que marca o remix de Robin Schulz - e a base de "Trava na pose" - já estava lá.

Patrick e Olliver pegaram o sample sem autorização. Eles não quiseram comentar o assunto na entrevista ao g1. Mas o MC Rennan afirmou que eles foram procurados pelos donos dos direitos de "Prayer in C" e estão negociando o uso do trecho.

"A gente entrou na negociação com eles", afirma o músico brasileiro. "A gente já ofereceu, agora eles têm que retornar para dizerem o quanto querem." Se tudo der certo, eles podem fechar um acordo como o dos autores do forró "Coração cachorro" com o inglês James Blunt para dividir os direitos.

Fonte: G1

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